Danila Maria Bernardi
Sócia-Diretora – BPO
Athros Auditoria e Consultoria + SFAI
A Reforma Tributária do consumo deixou de ser promessa para virar rotina operacional. Desde 1º de janeiro de 2026, o Brasil vive o primeiro ano de transição de um modelo construído ao longo de décadas para um novo desenho baseado em dois tributos sobre valor agregado.
Para as empresas, o impacto da Reforma não é apenas tributário, é financeiro e estratégico. Esse impacto se manifesta no caixa, na formação de preços e na capacidade de competir.
O novo sistema traz a não cumulatividade plena. Diferentemente do modelo atual, em que o aproveitamento de créditos é restrito ao conceito de “insumo” e varia conforme o tributo, a nova lógica assegura crédito amplo: praticamente todas as aquisições de bens e serviços vinculadas à atividade da empresa passam a gerar crédito de IBS e CBS.
Em tese, isso elimina o efeito cascata e faz com que o tributo seja suportado apenas pelo consumidor final. Há, porém, duas mudanças estruturais que exigem atenção. A primeira é que o crédito passa a ser condicionado ao efetivo recolhimento do tributo pelo fornecedor — a nota fiscal, isoladamente, não garante mais o crédito, o que já traz um impacto muito grande para empresas que trabalham com prazos alongados de pagamento/recebimento.
A questão mais sensível talvez seja o split payment — a divisão automática do pagamento no momento da transação. Na prática, quando o cliente paga, o próprio sistema financeiro (bancos, cartões, Pix) separa a parcela correspondente ao IBS e à CBS e a repassa diretamente ao Fisco, sem que ela transite pelo caixa da empresa.
Hoje, o intervalo entre destacar o imposto na nota e recolhê-lo no mês seguinte funciona, na prática, como capital de giro. Com o split payment, esse “fôlego” financeiro desaparece: o valor que chega ao fornecedor já vem líquido de tributos.
O efeito é mais duro para empresas com margens apertadas ou prazos longos de recebimento: o tributo é retido na origem, mas o dinheiro da venda só entra semanas depois, gerando descasamento de prazos. Soma-se a isso o crédito condicionado ao pagamento pelo fornecedor — se o parceiro comercial não recolher o imposto, o crédito pode não ser liberado, transformando a escolha de fornecedores em critério de conformidade fiscal. A recomendação prática é simular, ainda em 2026, cenários do novo fluxo de caixa e revisar contratos de longo prazo antes da entrada da CBS cheia.
Não obstante, a Reforma abandona o modelo do imposto calculado “por dentro”, em que o tributo compõe a própria base do preço. IBS e CBS passam a ser destacados “por fora”, tornando a carga tributária explicitamente visível no preço final.
A consequência é que o markup tradicional, construído sobre percentuais históricos que embutiam distorções tributárias, deixa de refletir a rentabilidade real. Muitos empresários precisarão reconstruir suas planilhas de formação de preço a partir de custos líquidos e tributos destacados separadamente.
Por outro lado, o crédito amplo tende a reduzir o custo tributário efetivo, sobretudo para empresas intensivas em serviços, que passam a creditar itens antes não aproveitáveis, tais como: serviços de TI, manutenção e despesas operacionais em geral.
Com o imposto visível “por fora”, o cliente passa a comparar fornecedores de forma mais objetiva, e empresas com margens infladas ou custos elevados terão mais dificuldade para justificar preços maiores.
A transparência diminuirá a competitividade embasada em brechas fiscais e passa a ser a qualidade da base de dados da empresa: cadastros corretos, NCM adequada, fornecedores regulares e conciliação financeira consistente. Como o crédito só existe quando o documento de entrada está íntegro, a governança de dados torna-se um ativo estratégico e não mais uma tarefa acessória do departamento fiscal.
Sendo assim, as empresas precisam se preparar para o novo mundo tributário. A Reforma Tributária redefine a forma como as empresas gerenciam finanças, fornecedores e clientes. As decisões tomadas ainda em 2026 sobre sistemas, créditos, contratos e preços, determinarão a saúde do caixa e a competitividade do negócio ao longo de toda a transição.







