Juliano Morais
Sócio-Gerente – Auditoria
Athros Auditoria e Consultoria + SFAI
Por que a implementação da nova norma representa muito mais do que uma alteração na Demonstração do Resultado
A qualidade do reporte financeiro nunca foi tão estratégica
As demonstrações financeiras deixaram há muito tempo de ser apenas um instrumento de atendimento às exigências legais e regulatórias. Em um ambiente de negócios caracterizado por maior sofisticação dos mercados, crescente demanda por transparência e decisões cada vez mais orientadas por dados, a qualidade da informação financeira tornou-se um dos principais ativos de credibilidade das organizações.
Investidores, instituições financeiras, órgãos reguladores, analistas e demais stakeholders não avaliam apenas os resultados apresentados por uma empresa. Avaliam, sobretudo, a forma como esses resultados são comunicados, a consistência das informações divulgadas e o nível de transparência adotado pela Administração. Na prática, duas empresas podem apresentar resultados semelhantes, mas gerar percepções completamente diferentes junto ao mercado em função da qualidade e da transparência de suas divulgações.
Foi justamente essa necessidade de aprimorar a comunicação financeira que motivou o International Accounting Standards Board (IASB) a publicar a IFRS 18 – Presentation and Disclosure in Financial Statements, posteriormente incorporada ao ambiente normativo brasileiro por meio do CPC 51 – Apresentação e Divulgação nas Demonstrações Contábeis.
À primeira vista, pode parecer que o CPC 51 altera apenas a forma de apresentação da Demonstração do Resultado. Entretanto, essa interpretação captura apenas uma pequena parcela de seus efeitos. Em nossa visão, o principal mérito da IFRS 18 está em incentivar uma comunicação financeira mais transparente, comparável e alinhada às necessidades dos usuários das demonstrações financeiras.
Muito além de uma nova estrutura para a DRE
É natural que a Demonstração do Resultado tenha concentrado boa parte das discussões desde a publicação da IFRS 18. Entretanto, restringir o CPC 51 à reorganização dessa demonstração significa subestimar o verdadeiro alcance da norma. Na prática, sua implementação pode exigir revisões em políticas contábeis, processos de fechamento, controles internos, sistemas de informação, indicadores gerenciais e critérios de divulgação adotados pela Administração. Um exemplo frequente envolve indicadores amplamente utilizados pela Administração, como EBITDA Ajustado, Resultado Operacional Ajustado ou Lucro Recorrente. A nova norma exige maior transparência sobre a composição dessas medidas, seus critérios de cálculo e sua reconciliação com os números contábeis apresentados nas demonstrações financeiras.
Essa característica transforma o CPC 51 em um projeto corporativo, envolvendo não apenas a Contabilidade, mas também áreas como Controladoria, Planejamento Financeiro (FP&A), Tecnologia da Informação, Relações com Investidores, Auditoria Interna e Alta Administração.
Mais do que atender a uma nova exigência regulatória, trata-se de fortalecer a qualidade do reporte financeiro e sua capacidade de refletir, de forma consistente e transparente, a realidade econômica da organização.
O que as organizações devem observar
Embora os impactos variem conforme o porte e a complexidade de cada entidade, alguns temas merecem atenção especial durante a jornada de adequação:
- >> Revisão da estrutura da Demonstração do Resultado (DRE);
- >> Novos critérios para apresentação e divulgação das informações financeiras;
- >> Identificação e divulgação das Medidas de Desempenho Gerencial (Management Performance Measures – MPMs);
- >> Revisão das Notas Explicativas;
- >> Avaliação dos impactos em políticas contábeis, processos, controles internos e sistemas; e
- >> Fortalecimento da governança do processo de reporte financeiro.
Mais do que cumprir requisitos normativos, essas iniciativas contribuem para elevar a qualidade das informações disponibilizadas aos usuários das demonstrações financeiras.
Uma pergunta prática que temos realizado em projetos de avaliação é: “os principais indicadores utilizados pela Administração para tomada de decisão seriam facilmente compreendidos por um investidor externo?”. Quando a resposta é incerta, normalmente existe uma oportunidade de aprimoramento que o CPC 51 ajuda a endereçar.
Uma oportunidade para fortalecer a governança
Mudanças regulatórias costumam ser percebidas pelas organizações como desafios de conformidade. Entretanto, em nossa experiência, organizações que tratam a implementação apenas como uma obrigação regulatória costumam concentrar esforços na reclassificação das demonstrações financeiras. Já aquelas que aproveitam esse momento para revisar processos, controles internos e políticas contábeis normalmente obtêm ganhos que permanecem muito além da entrada em vigor da norma.
Nesse contexto, a implementação do CPC 51 pode impulsionar melhorias que vão além das demonstrações financeiras, promovendo maior integração entre áreas, aprimorando a qualidade dos indicadores utilizados pela Administração e aumentando a confiabilidade das informações comunicadas ao mercado. Organizações que iniciam essa jornada de forma planejada tendem a reduzir riscos de implementação, evitar retrabalhos e conduzir a transição de maneira mais eficiente.
A perspectiva da Athros
Na Athros SFAI, acreditamos que o reporte financeiro é muito mais do que um requisito regulatório. Ele representa um instrumento essencial para a construção de confiança, reputação e credibilidade junto ao mercado. Nossa atuação combina conhecimento técnico, experiência prática em auditoria independente e visão de negócios para apoiar organizações na avaliação dos impactos do CPC 51, na revisão de políticas contábeis, processos e controles internos e na condução de projetos de adequação alinhados às melhores práticas de governança corporativa e reporte financeiro.
O CPC 51 (IFRS 18) representa uma evolução relevante na forma como as organizações apresentam e divulgam seu desempenho financeiro.
Mais do que atender a uma nova exigência normativa, sua implementação oferece uma oportunidade para fortalecer a qualidade da informação financeira, aprimorar processos internos e ampliar a confiança de investidores, instituições financeiras, órgãos reguladores e demais stakeholders.
Em um ambiente em que transparência e credibilidade assumem papel cada vez mais estratégico, preparar-se antecipadamente para essa mudança significa investir não apenas em conformidade, mas também em governança, qualidade do reporte financeiro e geração de valor para o negócio.ampliar a confiança de investidores, instituições financeiras, órgãos reguladores e demais stakeholders.







